sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

PORQUE ESTUDAR LÍNGUA PORTUGUESA???

Recentemente, ouvi relatos num mini-curso que me causaram profunda inquietação. Tratava-se de falas de educandos de realidades diferentes, mas que questionavam o mesmo assunto: estudar ou não estudar português? O primeiro, oriundo obviamente de escola pública, disse: “pra que estudar português se vou continuar roubando carros?”, o segundo, de uma escola abastarda manifestou-se: “pra que estudar português se vou herdar tudo do meu pai?”.


Realidades diferentes, mas que se debruçam na mesma problemática: estudar português não tem valor prático. Esse é o conceito da maioria de nossos educandos, sejam eles da classe alta, média ou baixa. Vivemos numa sociedade altamente imediatista, na qual a maioria das pessoas, sobretudo os jovens, acredita que tudo deve trazer um benefício ou lucro imediato, pensamento este resultante da lógica capitalista. Não há sentido estudar português se isso não me fará mais rico ou não me ajudará em minha vida prática. E na verdade... eles estão certos!

Não me refiro ao fato de estudar ou não português para roubar carros ou ser herdeiro de pai rico. Não! Refiro-me ao fato de ter de me debruçar sobre uma atividade que não tem valor prático e, portanto, não faz sentido. Só há, porém, a necessidade de corrigir a problemática: estudar ou não GRAMÁTICA? Agora sim, a pergunta faz sentido.

Mas talvez se pergunte: estudar Português e estudar Gramática não é a mesma coisa? Na verdade não! Português e Gramática são coisas diferentes e é neste equivoco que se encerra a grande resistência de nossos educandos com a matéria língua portuguesa.

Língua e Gramática não são a mesma coisa, a gramática faz parte da língua, mas não é imprescindível para o bom uso dela. Assim estudar análise morfológica (classes e formação de palavras) ou sintática (sujeito, predicado, adjunto averbial, etc.) não fará com que meu educando produza bons textos ou saiba adequar sua linguagem aos diversos contextos sócio-comunicativos, pelo contrário, só causa tédio e, por vezes, sentimentos de inutilidade diante da complexidade de muitos assuntos, como demonstrado nas opiniões citadas no início deste ensaio.

Essa descoberta não é nova. Diversos autores já falaram e demonstraram em excelentes trabalhos a ineficiência do ensino da gramática em formar bons usuários da língua. Dentre eles estão: Marcos Bagno (Dramática da Língua Portuguesa, Preconceito linguístico), Maria Helena de Moura Neves (Gramática na Escola), Mario Perini (Para uma Nova Gramática do Português), Sírio Possenti (Por que ( Não ) Ensinar Gramatica na Escola), entre outros.

Então por que continuamos a insistir nesta atividade despropositada? Uma das razões é a questão da tradição. Acostumamos-nos com tal forma de ensino durante séculos que a resistência á mudança é sempre muito forte. A escola, tanto pública como particular, está acostumada ao estudo gramatiqueiro, possuindo inúmeros programas de estudo baseados na gramática, que não é por acaso chamada de tradicional.

Na verdade, é necessário que as aulas de língua portuguesa, tornem-se verdadeiramente AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA, e não aulas de gramática. É necessário haver um ensino reflexivo, baseado no uso e não em regras que não possuem nenhuma relação com a realidade.A maioria dos exemplos utilizados na gramática fazxem referências a escritores da literatura nacional ou lusitana, mas a peregunta é: quero treinar escritores literários ou bons usuários da linguagem do dia-a-dia? Não escrevemos com a linguagem dos sonetos ou dos romances literários, escrevemos atas, resumos críticos, e-mails comerciais, etc. e é nesses gêneros textuais que reside a dificuldade dos nossos alunos.

Fiquem atentos, em postagens futuras, trarei algumas sugestões de aulas, técnicas e dinâmicas que tornarão as aulas de língua mais enriquecedoras. Até a próxima!

Um comentário:

  1. Por acaso cheguei ao seu blog. Estou gostando de ler seus textos e sugestões de aula.
    Hellem- São Pedro da Aldeia
    hbtoledo2@yahoo.com.br

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